O Presidente da República de Angola, João Lourenço, recebeu em Angola/Luanda na companhia da Primeira Dama da República, Ana Dias Lourenço, os cumprimentos de Ano Novo do Corpo Diplomático acreditado em Angola, numa cerimónia tradicional desta vez realizada no Complexo Protocolar da Presidência da República.
- Excelentíssima Senhora Embaixadora Saadia El Alaoui, Decana do Corpo
Diplomático;
- Excelentíssimos Senhores Embaixadores e Chefes de Missão Diplomática;
- Excelentíssimos Senhores Representantes de Organizações Internacionais
e demais entidades estrangeiras acreditadas na República de Angola;
- Minhas Senhoras, Meus Senhores;
- Excelências,
É com elevada honra e apreço que eu e a minha esposa recebemos hoje cada
um de vós, dignos membros do Corpo Diplomático, de Organizações
Internacionais e demais entidades estrangeiras acreditadas na República de
Angola, para esta tradicional cerimónia anual, que constitui não apenas um
momento de reafirmação dos laços de amizade e de cooperação entre os
nossos países, mas, sobretudo, uma oportunidade para reflectirmos sobre o
ano que findou, sobre os desafios que se colocam de agora em diante à acção
colectiva dos nossos países e sobre o contexto internacional imprevisível,
conturbado e perigoso que vivemos nos dias de hoje.
Permitam-me que formule os mais sinceros votos de um Ano Novo de paz,
saúde, prosperidade e bem-estar a todos e que este novo ciclo seja orientado
pelo fortalecimento do diálogo político e por um renovado compromisso com
a cooperação internacional e com o multilateralismo.
Ouvimos com muita atenção a mensagem de Sua Excelência Saadia El
Alaoui, Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária do Reino de
Marrocos na República de Angola e Decana do Corpo Diplomático
acreditado em Angola, a quem agradeço pelas palavras dedicadas ao meu
país, bem como pelos votos de bem-estar e prosperidade dirigidos ao povo
angolano, a mim e à minha família.
Como Vossas Excelências sabem, o ano que terminou teve um significado
especial para Angola por termos celebrado o 50.º Aniversário da
Independência Nacional, um marco importante da nossa história que nos
convidou à celebração e a uma profunda reflexão sobre o caminho
percorrido, os desafios enfrentados e as perspectivas para o futuro.
Cinquenta anos depois da proclamação da nossa Independência Nacional,
Angola afirma-se como um país estável e comprometido com a paz, com a
estabilidade, com a reconciliação nacional, com a boa governação, a
democracia, o desenvolvimento sustentável e a cooperação entre as nações.
Excelências,
No ano transacto, a República de Angola centrou a sua acção diplomática na
intensificação das relações com os seus parceiros, com o objectivo de se
construir uma base de confiança cada vez mais sólida e credível.
Foi um ano de várias realizações que projectaram Angola a nível
internacional, marcado não só pela celebração do jubileu dos 50 anos da
Independência Nacional, como também por termos assumido, pela primeira
vez na nossa história recente, a Presidência rotativa da União Africana, facto
que levou ao incremento das responsabilidades da República de Angola tanto
a nível continental como mundial.
Temos exercido esta responsabilidade num contexto particularmente
exigente e de grande complexidade, caracterizado por conflitos persistentes
em várias regiões de África e do mundo, instabilidade política, recorrência
de golpes de Estado e recuos democráticos em algumas zonas de África,
crises sanitária, económica e humanitária graves, desafios climáticos e
energéticos e um preocupante enfraquecimento dos mecanismos tradicionais
de diálogo e de cooperação internacional.
Enquanto Presidente da União Africana, Angola colocou no centro da sua
acção o financiamento para o desenvolvimento de infra-estruturas críticas
em África, com especial ênfase para as que contribuam para a melhoria da
interconexão entre as várias regiões do nosso continente e para o desenvolvimento integrado de África e a construção da África que queremos.
Foi neste espírito que, em Junho de 2025, realizámos em Angola o Fórum de
Negócios EUA–África e, em Novembro do mesmo ano, a 3ª Conferência
sobre o Financiamento para o Desenvolvimento das Infra-estruturas em
África, com o objectivo de mobilizar investimentos em infra-estruturas
estratégicas, alinhadas com a Agenda 2063 da União Africana e com a Zona
de Comércio Livre Continental Africana.
A realização dos dois eventos referidos permitiu-nos mobilizar recursos
financeiros consideráveis para o investimento em importantes sectores da
vida económica de África, como os corredores económicos integrados, as
redes ferroviárias, as auto-estradas transnacionais, o Mercado Único
Africano de Electricidade e o desenvolvimento do Plano Director para a
Aviação Africana, bem como para a transformação digital, a saúde, o
agronegócio e o turismo.
Do mesmo modo, em representação de África, Angola procurou afirmar a
voz do continente nos principais fóruns de governação global, com destaque
para a Cimeira do G20 na África do Sul, o TICAD no Japão, a Cimeira União
Africana-União Europeia em Luanda, a quarta Conferência Internacional
sobre Financiamento do Desenvolvimento, realizada em Sevilha, Espanha, e
ainda a participação na 80ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas
em Nova Iorque.
Nos diferentes eventos em que participámos, defendemos posições que
podem contribuir para a reforma da arquitectura financeira internacional,
para um acesso mais justo ao financiamento para o desenvolvimento, na
busca de soluções sustentáveis para a dívida e uma resposta equilibrada aos
choques globais que afectam desproporcionalmente os países em
desenvolvimento.
Tivemos a oportunidade de reafirmar o nosso pleno apoio ao reforço do
sistema global de comércio baseado em regras, nomeadamente através dos
processos de reforma em curso na Organização Mundial do Comércio, bem
como exortámos o G20 a encarar a Zona de Livre Comércio Continental
Africano não apenas como um projecto africano, mas como uma importante
contribuição para a estabilidade do comércio mundial.
No quadro das posições que fomos assumindo, demos destaque à
necessidade imperativa da industrialização de África, à capacitação do
capital humano africano e à inovação tecnológica, bem como realçámos em
fóruns específicos a importância de se assumir o compromisso com uma
parceria baseada na igualdade, no respeito mútuo e na co-responsabilidade
como resposta aos desafios globais.
Merecem um destaque muito particular os pontos de vista que expressámos
na Cimeira União Africana-União Europeia, durante a qual se realçou o
compromisso com a Visão Conjunta até o ano de 2030, alinhada com a
Agenda 2063 da União Africana, os Objectivos da União Europeia e a
Agenda 2030 das Nações Unidas.
Sendo a União Europeia a principal parceira comercial e investidora em
África, é natural que tivéssemos procurado colher dessa organização o seu
apoio à implementação da Zona de Livre Comércio Continental Africana e
o fortalecimento de cadeias de valor regionais, incluindo os minerais críticos
e a cooperação em projectos de infra-estruturas de conectividade.
Excelências,
Estamos a chegar ao fim da Presidência rotativa da União Africana que
assumi em Fevereiro do ano transacto com o compromisso de me empenhar
na promoção da Paz, da Segurança e da Estabilidade em África, sem os quais
o continente africano não conseguirá realizar plenamente os seus objectivos
de desenvolvimento.
Ao nível da União Africana, estabeleceu-se a necessidade de se pôr fim aos
conflitos armados no continente, objectivo ainda não alcançado, o que nos
obriga a continuar a envidar esforços para realizarmos o sonho do Silenciar
das Armas em África.
Não regateámos em momento algum nos esforços no sentido de contribuir
para a solução dos conflitos no continente, de entre os quais destaco os que
assolam o Sudão e a República Democrática do Congo.
Angola continua a jogar um importante papel no processo de pacificação da
RDC, cujos contributos ajudaram a chegar à assinatura do acordo de paz em
Washington no dia 4 de Dezembro de 2025, entre a RDC e o Ruanda.
Tratou-se, sem dúvida, de um momento histórico significativo, que não deve
ser desperdiçado por nenhuma das partes, que têm em conjunto a
responsabilidade da sua implementação, para que se possa alcançar a paz
duradoura na região dos Grandes Lagos.
O cessar-fogo negociado em Doha, no Qatar, entre o governo da RDC e o
M23 deve ser implementado, enquanto encorajamos as autoridades
governamentais e a sociedade civil congolesas a realizarem o diálogo
intercongolês sem mais demora.
É nossa convicção que os desafios que África ainda enfrenta exigem
respostas rápidas, objectivas e coordenadas que vão além da dimensão
securitária, devendo integrar outras componentes como o desenvolvimento
económico, a inclusão social, a boa governação e o reforço das capacidades
dos Estados.
Esta perspectiva, quando adequadamente concretizada, retira os argumentos
de que se servem os promotores de mudanças inconstitucionais de governo
em África para tentarem justificar os golpes que desferem contra as
democracias e as autoridades legitimamente constituídas.
Perante estas evidências e face à recorrência com que vão acontecendo
golpes de Estado no continente africano, impõe-se cada vez mais a
necessidade de se reforçarem as medidas de desencorajamento e condenação
destas práticas, reprováveis a todos os títulos.
Aproveitamos esta ocasião para exigir a libertação incondicional do
Presidente Mohamed Bazoum deposto por um golpe de Estado no Níger,
assim como de Domingos Simões Pereira, Presidente do PAIGC da GuinéBissau, país que realizou recentemente eleições, mas que, num caso inédito
na história dos processos eleitorais em África, nunca os verdadeiros
resultados eleitorais foram tornados públicos.
Excelências,
O mundo está diante de um retrocesso assustador relativamente às conquistas
democráticas já alcançadas e que, nas últimas oito décadas, contribuíram
para a paz, a estabilidade e a segurança mundiais e para o desenvolvimento
económico e social dos países.
O respeito pelos direitos humanos, pela defesa da soberania dos Estados e
pela integridade territorial dos países constituiu a base essencial sobre a qual
se construiu o edifício do Direito Internacional e as normas que regem as
Relações Internacionais contemporâneas, que, de um momento para o outro,
se estão a desmoronar e a colocar em risco todas as conquistas alcançadas
pela Humanidade desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Diante deste quadro, as Nações Unidas vivem num contexto de autêntica
humilhação, sem capacidade de exercer o papel que lhe cabe e que, durante
décadas, foi de extrema utilidade para assegurar a estabilidade mundial.
Este esvaziar intencional das responsabilidades das Nações Unidas está a dar
lugar à desordem internacional e à sobreposição da força da lei pela lei da
força.
O posicionamento assente na ideia de dois pesos e duas medidas não
favorece a abordagem imparcial dos grandes problemas políticos com que o
mundo se debate na actualidade.
Devemos estar todos alinhados quanto à importância fundamental do
multilateralismo como a única forma de contribuir para a restauração da
ordem mundial e impedir a reconfiguração geopolítica e económica do
mundo em benefício apenas das superpotências.
Neste contexto, reiteramos a importância do papel central das Nações Unidas
enquanto garante da paz, da estabilidade e da segurança internacionais, bem
como de outros espaços indispensáveis de concertação, diálogo político e de
acção colectiva que se impõe cada vez mais, para se impedir a redefinição
de fronteiras na Europa, em África, no Médio Oriente e no Caribe, onde se
assiste ao perigo iminente da balcanização de vários países.
As Nações Unidas não podem ser sequestradas pela acção unilateral de
potências mundiais, por sinal membros permanentes do seu Conselho de
Segurança.
Excelências,
Aproveito esta ocasião para expressar o nosso reconhecimento pelo trabalho
que as vossas missões diplomáticas e as organizações que aqui representam
desenvolvem a favor do reforço da cooperação e da amizade entre os nossos
respectivos países e povos.
Expresso-vos a total abertura e disponibilidade de Angola para trabalharmos
juntos no sentido de contribuirmos para a construção de um mundo de paz,
de concórdia e onde reine a justiça e o respeito mútuo.
Desejo-vos um Feliz e Próspero Ano Novo”.
